Dante e o Triunfo Poético: A Divina Comédia Revisitada à Luz do Espiritismo

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A Commedia vista com uma análise diferenciada, tendo como elemento de contraposição, a ótica espírita e o entendimento que a doutrina tem frente aos propalados pela Igreja e de outros autores mais antigos.

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Descrição

Alguém já disse que existem historiadores-mergulhadores e historiadores-surfistas. Os segundos passam de um tema a outro. Os primeiros, descem às profundezas observando com acuidade o cenário nebuloso, mas, descortinando no mesmo, novas paisagens. É o caso de Nicolas, que fez do Espiritismo o vasto oceano onde mergulha com assiduidade, trazendo a tona aspectos sempre novos e apaixonantes de tão vasta e complexa matéria.

Com o suporte de um dos mais belos temas da literatura mundial, A Divina Comédia, série de poemas escritos no século XIV pelo humanista Dante Alighieri, Nicolas Theodoridis se debruçou sobre O Inferno, O Purgatório e O Paraíso, buscando uma interpretação espírita para os diversos círculos localizados dentro da Terra. Lembre-se que o poeta também desceu ao inferno em vida e teve que superar pelo menos três círculos de condenações terrenas. O primeiro, o da paixão não consumada por uma jovem de sua cidade, Beatrice Portinari. O segundo, a adição à substâncias alucinógenas, segundo a biógrafa Bárbara Reynolds, e o terceiro, a traição política.

O tema que interessa ao nosso autor á um dos mais antigos do mundo e caminha lado a lado com a consciência do mal. Na Mesopotâmia dos sumérios e sua saga, o Gilgamesh, do Sheol dos judeus, ao Huis-Clos, de Jean Paul Sartre, o homem nunca cessou de imaginar o que seria esse lugar infernal e no que consistiriam os sofrimentos aí vividos. Como Nicolas, ensaístas, escritores, poetas, heróis e visionários multiplicaram suas descidas ao inferno para trazer à tona os fantasmas de uma época ou sua relação com temas importantes para as sociedades em que estavam e estão inseridos.

Na qualidade de historiadora, quero lembrar que a questão do inferno ultrapassa de muito o dogma cristão, pois ela está quase ausente dos ensinamentos de Jesus. Porém, o inferno cristão é o mais longevo e durável dos imaginários infernais. Durante a Idade Média, os fiéis conheceram o delírio de invenções macabras e suplícios infernais dos quais Dante nos oferece o retrato mais ilustre. Para os teólogos do século XVIII, ele passou a ser a prova da existência da implacável Justiça Divina. No século XIX ele se tornou uma construção intelectual e, meticulosamente regrado, não assustava mais tantos. Hoje, há quem diga que o inferno se situa na terra, impregnado com as cores da consciência moderna.

Dante une as noções existente entre o inferno popular e o intelectual e teológico. Ao primeiro, ele empresta imagens, ao segundo, o rigor lógico. A esta aliança da concretude e da clareza racional, debitamos seu sucesso. Até então, os infernos visitados eram caóticos, tinham topografia confusa, paisagens de sonhos povoadas por vales, rios e lagos sem laço comum entre uns e outros, suplícios desordenados e uma fauna que misturava dragões, monstros bizarros, animais reais e demônios. Dante organiza, classifica, ordena: seu inferno é geométrico, formado por círculos concêntricos. Ele tem uma entrada, um vestíbulo, muros e salas. De acordo com o lugar, nele andamos a pé, no dorso de um centauro, nas mãos de um gigante ou navegamos num barco. A notação do tempo que se escoa é precisa. O inferno de Dante é uma vasta construção intelectual à imagem das Sumas teológicas de sua época. Dante, segundo alguns, seria um Tomás de Aquino visionário; ambos classificam e ordenam. O primeiro, as imagens e o segundo, as ideias. A obra de ambos os italianos marca o momento máximo da Escolástica com a Suma Teológica de Tomás, e o Inferno, de Dante, construções que se querem racionais e inquestionáveis, se admitidas as suas premissas.

Mas como existem níveis de pecado, existem também níveis diferentes de punições e penas. Foi no século XII que os teólogos pensaram a necessidade da purificação da alma antes de sua entrada no paraíso para a massa de fiéis que não eram totalmente ruins ou bons.  O Purgatório seria assim uma exigência de justiça para aqueles que não mereciam a danação eterna. Como ninguém era ou é perfeito, seu lugar antes do Juízo Final seria o Purgatório. Sua imagem é o inverso do inferno ao qual o pecador desce. Sobe-se ao Purgatório. Ele se eleva numa montanha onde se purgam os sete pecados capitais: o orgulho, a inveja, a cólera, a preguiça, a avareza, a gula e a luxúria. A viagem de Dante vai do pecado mais grave, o orgulho, ao mais leve, a luxúria. Ao longo do caminho, cada portada é guardada por um anjo-guardião da humildade, da caridade, da paz, do zelo, da justiça, da temperança e da caridade. Ou seja, os pecadores tinham uma visão do oposto de seus pecados.

Tal como os peregrinos que partiam em direção à Roma ou Santiago de Compostela, as almas, embora se sabendo salvas, tinham que escalar a montanha, purificando-se do pecado cometido em cada porta. O Purgatório tinha por função a reflexão, expiação e arrependimento dos pecados e era o único caminho que levava a Deus. Sim, a alma só podia aspirar a sua redenção. Até Dante faz gravar em sua testa, pelo anjo guardião do Purgatório, a letra “P”, símbolo dos sete pecados capitais. À cada etapa ultrapassada, o anjo apagava com suas asas o “P” correspondente ao pecado perpetrado.

Ao atingir o Paraíso, Dante é abandonado pelo poeta Virgílio e guiado pelo poeta Estácio, autor da Tebaida, que o encaminhará ao jardim celeste onde será acolhido por Matilde, dona de beleza absoluta e símbolo da pureza anterior ao pecado original, antecipando a aparição de Beatriz. No alto da montanha, o Paraíso terrestre se estende sobre verdejante floresta, simetricamente oposta à tenebrosa floresta infernal.  Aqui, o ciclo da purificação é completado pela imersão no rio Lete, capaz de apagar os pecados e em outro rio, imaginado por Dante, o Eunoé, cujas águas vivificam a memória do Bem realizado na existência terrena.

Nessa belíssima e desafiadora obra, quem nos guia não é Dante, mas é Clio, a História, pelas sábias mãos de Nicolas. E ele vai em busca, não da lógica ou da ordem, mas do espírito, da alma, da essência da teoria de Kardec na Divina Comédia. Historiadores vem se debruçando e muito sobre a História das Espiritualidades, das Crenças e das Sensibilidades e Nicolas nos convida a pensar a ascensão ao paraíso, embasado na busca de qualidade espiritual. A Divina Comédia pode e deve ser lida como um texto espírita pois fala da busca pela perfeição espiritual. Do respeito ao próximo, da tolerância e sobretudo, de caridade. Afinal, Kardec mesmo ensinava em seu Livro dos Espíritos. “só se chega à pureza absoluta depois de múltiplas destilações, em cada uma das quais se despoja de algumas impurezas”. Enquanto Xavier, sublinhava. “Convencei-vos de que as leis da morte não excetuam ninguém e não vos esqueçais de que, no dia de vosso grande adeus aos que ficarem na estância das provas, somente pela bênção da paz e do amor na consciência tranquila é que podereis alcançar a suspirada libertação!”.

Provas e destilações se equivalem à caminhada de Dante do Inferno ao Paraíso, lembrando que embora ele tenha precedido Kardec no tempo da História, noções éticas do Espiritismo já estavam presentes no Renascimento. A salvação só pode ser atingida ao passar pela porta estreita que consiste em assumir a contradição existencial. A individualidade de cada um, depende do conjunto dos homens e só pode se afirmar neste reconhecimento. Eu sou eu e o Outro; Eu sou uma realidade e uma virtualidade. A falta de empatia e compaixão pelo Outro equivale a cair no Inferno e a se condenar a uma existência incompleta. Obra aberta, como queria Umberto Ecco, esse livro nos convida a múltiplas questões que, uma vez respondidas, nos tornam melhores do que somos.

 

 

Mary Lucy Murray Del Priori

Informação adicional

Tipo do Livro:

Livro Físico

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